Há exactamente uma semana, enquanto preparava o post de hoje, tive uma daquelas conversas interiores. O post era suposto ser uma wishlist com os meus sapatos preferidos, porque ando numa de calçado. Depois, não conseguindo ignorar todas as mensagens do onze de Setembro que os media e os não-media partilhavam, tive um debate existencial entre o tico e o teco (não tenho de explicar que são os neurónios, certo?)
Há onze anos (e uma semana), três milhares de pessoas perderam a vida. Três milhares de pessoas que respiravam, comiam e trabalhavam. Todas tinham preocupações, inseguranças e momentos de dúvida. Todas, seguramente, tinham uma opinião, uma certeza, uma felicidade.
Eu a escolher sapatos e três mil almas a olharem para mim e a pensarem no melhor que estariam a aproveitar a vida. Seria? Parei a wishlist e o resultado ficou no facebook do blogue. Não consegui mais.
Entre tentativas de adormecer e deambulações imaginárias por Nova Iorque, pensei se seria tudo isto uma futilidade. Tirei a ideia da cabeça. Já tinha chegado, há muito tempo, à conclusão de que esta não é apenas uma indústria fútil. É uma indústria de sonhos, de viver o que se imagina, de passar a real o que mais ninguém tem coragem de passar, de ousadias, de partilhas, de solidariedade e de movimento económico. Todos temos uma voz e a moda é a maneira como a expressamos. Alguns são mais calados, outros berram atitude. É assim em todos os mercados. Precisamos de arte para viver e, na moda, vivemos o que somos e vestimos o que vivemos. Afinal, ninguém ousa chamar fútil a um pintor. Chamam-lhe artista. O que ele faz não tem carácter utilitário absolutamente nenhum, à excepção de todo o potencial de proporcionar felicidade (ou uma outra qualquer reacção) a quem o contempla, mas não é considerado superficial. Nem devia ser.
As três mil almas não estavam a olhar para mim com desdém. Não me estavam a julgar. De facto, tenho a certeza que tinham mais do que fazer do que olhar para mim. Estavam, sem o saberem e sem me vigiarem, a ajudarem-me. A guiarem-me no caminho que sei querer seguir.
O importante não é o que conquistamos na vida, mas o que fazemos com essas conquistas. No caso da moda não é um par de sapatos, é onde vamos com eles. Qual o chão que queremos pisar e qual o par de sapatos que vamos usar para o fazer. E esse par é aquele que EU quiser escolher. Aquele para o qual eu olho e digo: nós vamos a Nova Iorque. Para muitas pessoas, não são sapatos. São pessoas, são canetas, são telas. Para todos são sonhos. Para mim, vão ser realizações.
E se eu tenho de fazer listas dos sapatos que quero vir a ter para me motivar a ser sempre melhor, então que seja. Aos quinze anos também fazia listas com os prós e os contras de um ou outro rapaz. Já encontrei o rapaz, faltam-me os outros sapatos.
1 Alexander Wang – OUSADIA; 2 Zara – SIMPLICIDADE; 3 H&M – COERÊNCIA; 4 Christian Louboutin – CONQUISTA; 5 Moschino – (IM)PERFEIÇÃO; 6 Topshop – SERENINDADE; 7 Alexander Wang – ABERTURA DE ESPÍRITO; 8 Alexander Wang – SEGURANÇA; 9 ACNE – IMAGINAÇÃO; 10 Christian Louboutin – ELGÂNCIA; 11 Zara – PROFISSIONALIMO; 12 Zara – REALIZAÇÃO


